Posted on 3:19 AM | By Annie | In

Na véspera de um abandono positivo, ficamos a pensar em quantos abandonos positivos tivemos na vida e como isso nos afecta. Quando tentamos analisar emocionalmente os abandonos, eles parecem-nos sempre negativos, porque os vemos sempre com o olhar da dor. Mas precisamos de os ver pela luz do amor.
Quando se ama, deixa-se partir. Permite-se o abandono, mesmo quando as lágrimas nos esvaziam de sentido. Quando se ama, deixamo-nos partir. E há neste dom do deixar partir sempre um sorriso. Tem que existir sempre um sorriso, mesmo quando se chora. E temos que conseguimos ter esse gesto de altruísmo, porque o altruísmo é amor. " If you love someone, set him/her free." Quando nos lançamos na lógica do amor, abandonamo-nos em absoluto. Mantemos a nossa individualidade, mas damos percentagens do que temos de mais precioso. E só concebo o amor quando essa percentagem é significativa, e quando o processo é recíproco, mesmo que as percentagens não sejam iguais - porque NUNCA são.
E, por isso, quando permitimos o abandono - não vale a pena fazer filmes, encaremos os abandonos de maneira positiva -, temos que dar o sorriso. Um sorriso com lágrimas, cheio de medo e de receios, mas confiemos no futuro e trilhemos os caminhos que nos parecem adequados - somos meros humanos, nada é demasiado certo nem demasiado incerto, usemos o poder de decisão e livre arbítrio - para que os entrecruzamentos das linhas das vidas de cada um se proporcionem.
E deixemo-nos de impossíveis e de dramatismos. Somos todos capazes de tudo. Há uns que se acobardam demais, outros que ousam demais - aonde leva a ousadia em demasia? e onde nos prende a grande cobardia? - e nem a desculpa do dinheiro ou do tempo nos vale. Valer-nos-á a consciência da nossa própria intolerância aos feitios alheios aos nossos - falo por mim, às vezes não tenho paciência nem para mim - e a modificação consciente - ou, como eu gosto de lhe chamar, o "amadurecimento consciente das emoções e das sensações". Somos nós que crescemos e que nos moldamos consoante as vivências que interferem com a nossa atitude. E nunca são elas que nos modificam. É a absorção do seu impacto que tem efeito em nós.
Falo de abandonos, mas não só de relações amorosas. Falo de amigos, pais-filhos, avós-netos, pessoas que vivenciam experiências que as modificam profundamente e as liga por laços indeléveis, que nunca serão quebrados. Que mesmo que a mágoa os assombre, os laços e o amor superam - ou devem superar; se não superarem, é porque os laços, não eram OS LAÇOS.
E a ternura pode ser expressa de maneiras diversas. Uma delas é o deixar ir. É o abandono positivo. Há outras maneiras, como expressar todo um amor num beijo e não precisar de dizer mais nada. E abandonar-se ao amor, que não precisa de palavras, só de olhares. E acho que a imagem do Beijo, do Gustav Klimt, é a representação/apresentação mais verdadeira desse abandono do e pelo amor. Primeiro, porque a maneira como ele pega no rosto dela é a expressão da ternura infinita do amante, todo o carinho entre duas mãos e entre dois pares de olhos. Segundo, depois do beijo, o abandono positivo acontece, porque o amor se transfere, multiplica-se, expande-se. E vagueia, tocando toda a gente sem armadura de metal. Abrir bem os olhos e expandir os braços , sorrir ante um por do sol e um sorriso de um cão ou o riso de uma criança. Maravilharmo-nos todos os dias - TODOS OS DIAS - com o humor da natureza, com a beleza dos gestos humanos, com a riqueza dentro de cada um de nós.
E aí permitimo-nos abandonar-nos de nós mesmos, porque estamos seguros por essa ternura "ambiental". E permitimo-nos descobrir as coisas a que não dávamos importância. Permite-nos avançar com os pés em frente - para onde quer que seja - quando temos o coração cheio de luz - e de medo. Mas temos a certeza - incomensurável e irreprimível - de que esta é "the right thing to do".
Um bem hajam aos aventureiros que ousam amar. O outro, o mundo, a natureza, a aventura, a descoberta, o outro lado ainda mais positivo da ternura e que nos rasga os olhos e nos dilacera a alma, de tal modo que nos transformamos sempre no outro melhor que há em nós. Boa viagem a todos os que ousam navegar as águas imprevisíveis da ternura e da ilusão.
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