tiras-me as palavras
Sexta-feira, Novembro 07, 2008
Parece que é assim. Tiras-me as palavras, por tanto me travar no que tenho para te dizer.
Se o dissesse, seria com brilho nos olhos, com as mãos em grandes gestos e amplexos enormes dos braços. Seriam risos e saltos, e pegar-te nas mãos ou então fugir para longe de ti, para poder saltar entre os passeios, e olhar para um céu imenso. E depois, de braços bem abertos, sorrir-te. Um sorriso longo, de peito cheio de ar e amor. E aguardar-te. Ficar a olhar para ti, a esperar que venhas, mesmo que o magnetismo entre os nossos olhares seja tanto que não nos consigamos mover, sequer. Depois, devagarinho. Aproximo-me, aproximas-te. A saudade de há dois segundos não te ter já me dói. Depois os momentos infinitos que não te tenho já passaram. Estamos frente a frente.
E mesmo que não compreendas ou não partilhes o que sinto, acho que nem interessa. Conseguir dizer-te tudo o que me vai cá dentro, libertar esta grande bola de fogo que tenho dentro de mim, é mais do que remédio. Espero que as coisas melhorem, passado um tempo. Ou então, sabes, deixarei de te falar. Embora saiba desde sempre que isso não é remédio. Mas compreenderás as minhas pancas, que são sempre por só razão: esta bola de fogo que me consome e que me estrangula a voz num soluço ou num gaguejo. Não sei se coro, nem se corarei na altura. Sei, pacificamente, que o destino tem mistérios curiosos. E que a linha da vida só às vezes deve ser apressada.
Já nem me interrogo porque me dominas assim o sentimento. Mas, às vezes, desejava que passasse. De vez.
Deslouvor aos novos poetas snobs
Domingo, Novembro 02, 2008
Quanto mais os ouço e os vejo, nos seus tiques de falar caro e na maneira como articulam palavras e canetas, que não servem para mais do que entreter o nervosismo de não saberem o que dizem, mais lhes alimento um ódio bem nutrido, em brasas bem aquecidas a que não tenho pudor de acrescentar umas folhas de oliveira.
Quanto mais crédito se lhes dá, e se ouve com olhos atentos a veracidade oca de que lhe falam, com a certeza no tom das palavras que fazem questão de articular com cuidado – na fala sassamela – e na forma como as mãos acompanham o trajecto que as palavras fazem ao cair da boca dele nos regaços dos outros, mais vontade tenho de adormecer sobre o braço através do cotovelo pousado no encosto do sofá verde.
Quanto mais espaço e mais silêncio se lhes dá, e páginas em branco para meia dúzia de poemas, que não contam uma história nem todos juntos nem separados, e quanto mais excentricidade se lhes desculpa, para fotos de nudez total e outras que tais masturbações mentais, mais vontade tenho de acrescentar ramos e toros à minha fogueira em lume brando, erigir uma pira monumental e queimar manuscritos, “imprimistos” e até os próprios corpos de gente que nunca viveu, jamais, a não ser através de configurações gramáticas herméticas e complicadas que toda a gente compra, mas ninguém lê.
Aos novos poetas snobs, pois. A quem mais?
